Na ocasião do Tratado de Hudaybiyyah, muitos muçulmanos talvez tenham pensado, à primeira vista, que as condições não lhes eram favoráveis. O Profeta (S.A.A.S.), porém, enxergava além das circunstâncias imediatas. Aquele acordo acabou se transformando em uma oportunidade para a expansão do Islam.
Aqui há uma grande lição: às vezes, ser forte significa lutar; outras vezes, ser forte significa saber fazer a paz no momento certo. Mas reconhecer esse momento não é tarefa para qualquer pessoa. Prudência significa saber quando resistir, quando esperar e quando negociar.
Às vezes, para compreender os acontecimentos atuais, não basta acompanhar as notícias. É preciso voltar um pouco no tempo e conhecer a vida de um homem que, há mais de mil anos, em meio a guerras, cercos, pressões e traições, construiu uma sociedade cuja mensagem atravessaria os séculos.
A vida do Profeta Muhammad (S.A.A.S.) não é apenas a história da revelação, da migração e das vitórias. Uma parte fundamental de sua conduta aparece justamente nos momentos difíceis: quando o inimigo parecia mais forte, os recursos eram escassos e cada decisão podia mudar o destino de uma comunidade.
Diante do inimigo, o Profeta (S.A.A.S.) não era ingênuo nem avesso ao diálogo. Ele conhecia a negociação, firmava acordos, dialogava com diferentes tribos e, mesmo quando as circunstâncias pareciam desfavoráveis aos muçulmanos, tomava decisões com visão de longo prazo. Entretanto, havia um ponto constante em sua conduta: dialogar jamais significava ignorar o inimigo.
Essa talvez seja uma das lições mais importantes de sua vida para os dias atuais.
Na história contemporânea do Irã, também vimos diversas vezes que a hostilidade não ocorre apenas por meio de balas e mísseis. Às vezes, o adversário senta-se à mesa de negociações, sorri, fala de paz e, ao mesmo tempo, mantém a pressão. Por isso, a questão não é simplesmente “negociar ou não negociar”. A questão mais importante é: com quem negociar, a partir de qual posição, com quais garantias e sobre quais assuntos?
A recente guerra entre o Irã e Israel, conhecida como Guerra do Ramadã, tornou essa questão ainda mais relevante.
Quando mísseis e aeronaves envolviam os céus da região em conflitos, uma realidade tornou-se ainda mais evidente: na política internacional, poder e diplomacia não estão separados. O negociador que se senta à mesa fala respaldado pelo poder nacional, pela resistência popular, pela capacidade defensiva e pela coesão interna.
É nesse ponto que a releitura da conduta do Profeta (S.A.A.S.) ganha significado.
O Mensageiro de Deus (S.A.A.S.), mesmo nas circunstâncias mais difíceis, combinava prudência e firmeza. Não escolhia qualquer guerra, nem aceitava qualquer paz. Quando um acordo era firmado, seu objetivo era proteger os interesses da comunidade, e não simplesmente recuar de princípios fundamentais para alcançar um acordo.
Talvez essa também deva ser nossa perspectiva hoje.
Se uma negociação for realizada, devemos perguntar: o que a outra parte já demonstrou? Ela demonstrou boa-fé ou só fala em negociação quando pretende aumentar a pressão? A negociação busca resolver o problema ou constitui uma oportunidade para obter mais concessões?
O líder mártir da Revolução Islâmica havia alertado diversas vezes sobre negociações realizadas sem garantias e sem confiança na outra parte, considerando que negociar com os Estados Unidos nessas condições não seria “inteligente, racional e honroso”.
O novo e poderoso líder, Sayyed Mojtaba Khamenei, também afirmou, em uma mensagem após o cessar-fogo e durante o processo de negociação, que o adversário havia assumido compromissos na primeira rodada de negociações, mas não os havia cumprido. Ele declarou:
“Eu tinha, em princípio, uma opinião diferente; porém, considerando o compromisso assumido pelo respeitável presidente, na qualidade de presidente do Conselho Supremo de Segurança Nacional, em seu próprio nome e em nome dos demais membros, de preservar os direitos do povo iraniano e da frente de resistência, e tendo ele declarado expressamente que assumia essa responsabilidade perante mim, autorizei a negociação.”
Negociar repetidamente com um adversário que não cumpre seus compromissos não faz sentido e, em determinadas circunstâncias, pode transmitir ao inimigo um sinal de fraqueza e significar um recuo em relação a princípios fundamentais.
Mas há um ponto sutil: ser contrário à negociação não significa ser contrário à diplomacia.
Pelo contrário, a conduta do Profeta (S.A.A.S.) demonstra que a diplomacia é valiosa quando está a serviço da dignidade e dos interesses da sociedade.
No Tratado de Hudaybiyyah, muitos muçulmanos talvez tenham considerado inicialmente que as condições eram desfavoráveis. O Profeta (S.A.A.S.), porém, enxergava o futuro. Aquele tratado transformou-se em uma oportunidade para a expansão do Islam.
Essa é uma grande lição: às vezes, ser forte significa lutar; outras vezes, ser forte significa ter a capacidade de fazer a paz no momento adequado. Mas identificar esse momento exige discernimento.
Prudência significa saber onde permanecer firme, onde esperar e onde negociar.
Hoje, a equipe negociadora iraniana encontra-se em uma situação na qual cada palavra pode produzir grandes consequências. Ela não está simplesmente sentada diante de alguns diplomatas americanos; carrega consigo a experiência de anos de sanções, ameaças, guerras e desconfiança. Essa experiência precisa ser utilizada no momento adequado e não pode ser esquecida nas próximas negociações.
Por outro lado, a outra parte também não chega à mesa apenas com documentos e propostas. Ela traz consigo seus próprios recursos políticos, econômicos e militares.
Portanto, o que importa não é simplesmente sentar-se ou não à mesa. O essencial é saber quem está sentado à mesa e com que capacidade de negociação.
É justamente aqui que a história do Profeta (S.A.A.S.) pode servir de orientação para os dias atuais.
Na vida do Profeta, fé e racionalidade caminhavam juntas; coragem e prudência; resistência e paciência; negociação e conhecimento preciso do adversário.
Talvez o maior erro seja estudar a história apenas para chorar ou para se orgulhar. A história deve nos dar capacidade de discernimento.
Se aprendemos com a vida do Profeta (S.A.A.S.) a não nos submeter à injustiça, também devemos aprender a não ser ingênuos.
Se aprendemos que a paz é valiosa, precisamos compreender que nem todo acordo é paz.
Se aprendemos que a negociação pode ser um caminho para evitar derramamento de sangue, também precisamos compreender que, quando o adversário transforma a negociação em instrumento para impor suas próprias vontades, ela deixa de ter o verdadeiro significado de negociação.
Talvez essa seja a principal lição dos dias difíceis de hoje:
Nem toda guerra é sinal de coragem, assim como nem toda negociação é sinal de racionalidade. O que mantém uma nação digna é a capacidade de distinguir entre as duas.
O Profeta (S.A.A.S.) nos ensinou que é possível permanecer sereno sob intensa pressão, tomar decisões diante de grandes ameaças e, mesmo no auge do poder, não se deixar dominar pelo orgulho.
Hoje, o Irã também precisa, acima de tudo, dessas três coisas:
firmeza sem impulsividade, negociação sem ingenuidade e tomada de decisões sem esquecer as lições da história.
Talvez mais de mil anos separem Medina do Irã de hoje, mas algumas lições permanecem as mesmas.
O inimigo pode mudar de rosto, suas ferramentas podem se transformar e sua mesa de negociações pode se tornar mais moderna. Mas a pergunta continua sendo a mesma:
Estamos negociando para preservar nossos direitos ou, por meio de uma confiança sem garantias, para entregar aquilo que conquistamos com tanta dificuldade?
A história não responderá essa pergunta por nós.
Somos nós que devemos ter aprendido com ela.
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